Já imaginou como é ser um PM no Rio de Janeiro? Veja desafios

Policiais de UPPs são os que mais pedem afastamento por problemas psiquiátricos, segundo levantamento da PM/Reginaldo Pimenta
Você aceitaria um emprego que o transforma em alvo de criminosos diariamente, no qual o risco de morrer ou ser ferido é de 20% e o salário inicial de menos de R$ 3 mil é pago com atraso? No Rio de Janeiro, 45 mil homens e mulheres vestem a farda da Polícia Militar e encaram todos os dias o trabalho arriscando a própria vida. Outros 4 mil aprovados no último concurso da corporação, em 2014, aguardam para ser chamados.

Segundo um estudo feito pela própria instituição, dos 90 mil homens que serviram a Polícia Militar no Rio nos últimos 20 anos, 18 mil morreram ou pediram baixa depois de serem feridos: o equivalente a 20% do efetivo.

Apenas este ano, 93 agentes foram mortos e 260 ficaram feridos no Estado, tanto durante o serviço quanto em dias de folga, de acordo com dados da própria polícia.

O sargento Wagner Alves é responsável pelo treinamento de PMs que querem ingressar em uma das unidades mais disputadas da corporação, o Batalhão de Ações com Cães (BAC). Ele conta que a maioria dos candidatos vêm das UPPs, assustados com a violência crescente nas comunidades.

Policial Militar Rio de Janeiro

Estabilidade

“Conheço pessoas que querem entrar pela estabilidade. Quando se deparam com a realidade, se assustam. Pedem baixa. Claro que o salário ajuda a pagar as contas, mas eu nunca entrei pensando na violência. Se você pensar, não sai de casa”, acredita o sargento. Mesmo diante dos riscos, ele tem orgulho da profissão e conta que é inspiração para o filho caçula que, aos 4 anos, já diz que quer seguir os passos do pai.

Mas nem todos se mantêm firmes na escolha. Os pedidos de baixa aumentaram cerca de 70% na comparação entre 2016 e o ano anterior. Em 2015, foram 59 pedidos, contra 100 do ano passado.

Vocação

Embora o número de desistências tenha aumentado, representam apenas 0,2% do total do efetivo. Contrariando a realidade de quem está na ativa, há um batalhão de cerca de 4 mil homens e mulheres que foram aprovados no último concurso e aguardam serem chamados.

Uma das turmas está fazendo curso de formação desde março. No total, será um ano de treinamento. Mas, afinal por que homens e mulheres querem ingressar na corporação apesar de tantas adversidades?

Aluna do curso de formação de PMs, Laisa Salles ficou entre os 40 melhores colocados no último concurso que teve cerca de 100 mil candidatos para 6 mil vagas. Mas, para conseguir entrar, precisou remover a tatuagem que tinha na nuca, que é proibida na corporação.

Depois de seis sessões de laser e de passar por três cirurgias, Laisa diz que foi muito doloroso, mas que esta valendo a pena. E reforça o discurso de que é preciso ter vocação para encarar a profissão. “Para mim é um prazer imenso poder proteger, servir e defender a sociedade, mesmo com o risco de perder a própria vida”, revela Laisa.

Quatro pedidos de afastamento por dia em 2016

A rotina de estresse dos policiais pode ser medida em números. Ano passado, 1.498 agentes entraram  com pedido de afastamento das funções por problemas psiquiátricos – uma média de quatro por dia. 

O número é 800% maior do que o registrado em 2013, último ano em que o levantamento foi feito pela Comissão de Análise da Vitimização Policial da PM. Naquela época, 188 policiais pediram afastamento por motivo psiquiátrico à corporação.

Ainda de acordo com o estudo, os policiais que atuam nas UPPs são os que, no último levantamento, mais pediram a licença, 30% do total.