Tratamento humanizado é alento na dura luta contra o câncer

Mais do que sessões de quimioterapia, visitas ao oncologista e exames tecnológicos capazes de detectar o menor sinal de anomalia no organismo, o tratamento humanizado do câncer faz máquinas frias dividirem espaço com abraços. Agulhadas químicas andam juntas a massagens, boa alimentação e vez ou outra um afago. Olhar o paciente na sua integralidade, além de diagnósticos e tumores, é um desafio para a medicina, mas essa preocupação tem crescido entre os especialistas.

O assunto, inclusive, ganhou um manual próprio, assinado por alguns dos maiores médicos especializados na área: os oncologistas Fernando Maluf, responsável pelos setores de oncologia dos hospitais Beneficência Portuguesa e Albert Einstein, e Antonio Carlos Buzaid, do Centro de Oncologia Antônio Ermírio de Moraes, além da paliativista Andréa Malta Ferrian, também da Beneficência Portuguesa.

O doente não é a doença
No último congresso “Todos Juntos Contra o Câncer”, realizado em setembro na cidade de São Paulo, o médico fez o lançamento do “Manual Oncológico Clínico”, uma espécie de bê-a-bá sobre cuidados paliativos para pacientes de câncer.

Segundo Maluf, o mais importante é que se derrube o mito de que o cuidado paliativo serve apenas a pacientes em fim de vida, crença que pode criar barreiras em relação à especialidade. Tratar o paciente como um todo, ele diz, pode fazer da vida de qualquer pessoa que passe pelo tratamento mais fácil — ou menos dolorida física e emocionalmente.

“O cuidado na oncologia precisa ser mais individualizado, olhando para o doente não como doença, mas como pessoa”, defende. “Dessa forma, temos um olhar mais 360 graus, não voltado apenas a tratar o câncer”, continua. Assim, ele acredita que mesmo decisões do tratamento que parecem óbvias no momento do diagnóstico podem mudar.

De São Paulo, o especialista conversou com a reportagem sobre humanização do tratamento e a diferença que ela pode fazer para quem enfrenta a doença:

Metrópoles: Quando falamos de cuidado paliativo em pessoas com câncer, vale apenas para pacientes terminais?
Fernando Maluf: Essa é uma pergunta importante. Não, “cuidados paliativos” nem seria o melhor termo. Prefiro chamar de “cuidado de suporte”. São medidas voltadas a amenizar ou resolver sintomas decorrentes do câncer ou do tratamento. E isso engloba não apenas pacientes de doença avançada ou em terminalidade, mas também pessoas com a doença em estágio inicial, mas que estão sofrendo psicologicamente ou fisicamente. Aqui, entram o controle da depressão, da náusea, da dor… E envolve um conjunto de ações para que o processo todo seja mais fácil, e tire do paciente qualquer tipo de sofrimento.

Isso requer uma equipe especializada ou pode ser feito pelo médico?
Hoje, são poucos os lugares no país que têm uma equipe preparada para diagnosticar e tratar essas situações do paciente com câncer. A maioria dos centros no Brasil ainda têm médicos oncologistas ou cirurgiões que são bem formados, mas não se dedicaram a essa área. A vantagem é que há espaço para desenvolvimento desses centros, para que mais profissionais se formem e se especializem no tema.

Quando falamos em cuidado de suporte, não falamos só de médico. Envolve alimentação, técnicas de medicina integrativa, como acupuntura e massagem, psicólogos, enfermeiros… Uma equipe completa de tratamento envolve de oito a 12 profissionais, trabalhando de forma integrada.

É um time, uma espécie de orquestra. Cada profissional atua na sua área, oferecendo todos os serviços necessários a esse paciente.

Fernando Cotait Maluf, oncologista
Divulgação/Instituto Vencer o Câncer


E como aplicar o atendimento ideal em serviços de saúde pública, em que o paciente sequer tem um oncologista fixo para chamar de “seu”?

As pessoas podem usar aquilo que elas aprenderam para dar suporte ao paciente, mesmo não tendo formação específica na área ou um departamento focado nisso. É claro que o grau de especialização faz diferença. É como você ter um oncologista que trata todos os cânceres e um que só trata melanoma. O último talvez trate melanoma muito melhor, mas o outro também pode tratar o paciente. Não é o ideal, mas pode.

Ter esse cuidado específico pode mudar o resultado do tratamento medicamentoso?
Pode, claro. Porque, quando você tem pacientes menos prejudicados pelos sintomas ou pelo tratamento, com menos efeitos colaterais, você modifica a “aderência”. A adesão ao protocolo médico aumenta e isso pode alterar o resultado.

Hoje, há muito mais notícias sobre novas tecnologias e tratamentos do câncer, deixando o cuidado com o paciente em segundo plano. O debate sobre a humanização desse atendimento tem crescido entre os médicos?
Não há dúvida. É um tema muito mais perceptível. Os pacientes estão começando a entender a importância dele e perguntando aos médicos, pedindo por terapias de suporte. O cenário ainda não é o ideal. A gente espera que essa recomendação seja proativa da parte do oncologista e não reativa, em resposta a um pedido. Mas a visibilidade tem aumentado.